Kant, Nietzsche, e a moral

Até bem pouco tempo conhecia pouquíssimo sobre a obra de Immanuel Kant, mas sabia um pouco da sua filosofia através de outros autores. Em 2006 tive meu primeiro contato com a obra de Friedrich Nietzsche, e juntamente um choque: pela primeira vez vi alguém atacar o mestre Kant com tanta veemência. Ironicamente, foi só por causa disso que resolvi ler, na íntegra, as famosas “Críticas da Razão” de Kant. Queria ter base para acreditar que Nietzsche estava errado com relação ao grande mestre.

Comecei com a Crítica da Razão Pura e tive certeza que Kant foi mesmo ‘o cara’… isso até começar a ler a Crítica da Razão Prática. Logo nas primeiras páginas entendi a revolta de Nietzsche: é espantoso como que o mesmo filósofo tão minucioso e tão preocupado com a coerência que concebeu a ‘razão pura’ tenha sido tão equivocado em sua ‘razão prática’. Veja só o que ele teve a cara-de-pau de afirmar, rotulado como suposto corolário:

A razão pura é por si mesma prática, e dá ao homem uma lei universal, que denominamos lei moral.

Apenas para ficar claro:

[1] COROLÁRIO = verdade que decorre de outra, que é sua conseqüência necessária ou continuação natural. (Dicionário Houaiss)

[2] Resumidamente, o que ele quis dizer é que ‘a lei da moral e dos bons costumes’ é tão certa quanto fato de que soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre igual a 180 graus.

Não satisfeito em somente escrever esse disparate ele ainda prossegue com um mal-criadíssimo “isso é incontestável”. Ainda não está convencido do equívoco? Isso porque ainda não te contei que nos parágrafos seguintes ele diz que a “lei moral” é também a “lei santa”.

Depois dessa última fui obrigada e fechar o livro e pensar se valia mesmo a pena continuar a leitura.

Ora, meus queridos, muitos de vocês sabem que durante longos anos perdi meu tempo fui ávida seguidora do cristianismo, e por isso mesmo eu sei que nem o melhor dos cristãos tenta definir suas leis divinas de uma forma tão decepcionante. O motivo em seguir uma “lei moral” é, para o cristão, tão somente, a em Deus e nas escrituras sagradas. O que é, DE LONGE, menos ridículo do que dizer que as mesmas razões que temos para entender a matemática e as outras ciências são as que nos fazem seguir um determinado estilo de vida, seja ele denominado “santo” ou não.

Brochei.

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10 Respostas

  1. Calma… não desanime. Mesmo não concordando com algumas afirmações de alguem é interessante esse conhecimento, pode-se aprender sempre algo.

  2. Ju, sinceramente, eu acho que você não deveria fechar o livro! Eu sei que sou suspeita, pois tenho uma quedinha muito grande pelo Kant, mas eu acho que você foi muito “radical” com ele … Vou te dar um conselho, me permite? Antes de ler a “Crítica da Razão Prática”, leia “A Fundamentação da Metafísica dos Costumes” do Kant também. Este último é um livro menor, dá pra ler em um final de semana. Digo que a leitura deste livro te permite compreender mais o pensamento kantiano ao chegar na “Crítica da Razão Prática”.

    ;)

  3. Obrigada pela foto homenageadora! Você é fofa demais!!! Bjinho

  4. Essa coisa de “acharmos tempo” para tudo o que queremos na vida … é bem complicado! Mas se você sente saudades, volta estudar música =)
    Você tocava o que?

    bjs

  5. Muito bom esse resuminho. Dei pra pelo menos dar uma elucidada na minha curiosidade. Tenho muita vontade de ler os clássicos da filosofia, começei Nietzche, mas juro que deu nó na minha cabeça.

    Pode ser que depois que eu entrar na faculdade, a mente se abra e Nietzche consiga entrar mais facilmente.

    Muito bom o blog, e não somente esse post. Não abandone-o

    Abração

  6. Brochou? Eu é que me surpreendo cada dia mais com vc!

  7. Gostei da sua reflexão e do seu resumo,eu me considero precoce pra minha idade,então eu curto um pouco dessas divagações.Foi interessante como expôs o seu ponto de vista em relação a Kant.Mas eu tenho uma quedinha por Kant também mas procurarei me informar sobre Nietzche =D

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    Acabei de começar um blog,é chato começar, se der dá uma passada por lá, não faz muito a sua cara,mas não custa nada :D

    http://www.ocaquix3.wordpress.com

    um abraço do caqui :D

  8. Eu também quando comecei a estudar filosofia tive uma certa aversão por Kant, achava que nunca iria entender, etc. Mas depois vi que é belíssimo. Enfim, tenho que entender bastante a Crítica da Razão Pura porque o autor que eu mais gosto faz um crítica à obra (Hegel).

    Fico feliz por você mudar a tempo.

  9. Olá, desculpe o intrometimento, parecem ser pessoas que se conhecem muito bem, sou estudante de Filosofia da UFPel (RS) e estudo Kant desde o segundo semestre, creio que a Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) te fornecerá, como mencionou a Srta. Ana Carolina, mais suporte para que não tenhas um infarto em ler a Crítica da Razão Prática (1788). Kant sem dúvida é um autor bastante pertinente e creio que encontrarás uma argumentação bem mais pertinente se analisares a obre deste como um sistema, não deves ler como se fossem obras desconexas, mas sim interdependentes. Um grande abraço a todos!!!lucianosilveira.blogspot.com

  10. Ju, acho que a sua dificuldade em “tolerar” as idéias do Kant faz parte da atual, e já antiga, desconfiança sobre a existência de um certo ou errado. Filósofos como ele e outros buscavam a existência de um certo ou errado além dos caprichos do ser humano, tentando abstrair uma lei universal, ou pelo menos, um fundamento lógico desligado das questões contingentes. Não sei se tal busca hoje se tornou mesquinha ou se a minha compreensão de Kant foi superficial. Mas o que eu sinto é que o novo sentimento de liberdade gerado pelas críticas de Freud, Marx, Nieztche e outros, reduziu a moral e inclusive a ética a uma questão de prática de convívio humano: são coisas criadas por nós, meros instrumentos de paz, nada mais, nada que vá além de sua necessidade. Questões como sentido da vida, e ciência, existência, se mantém acima enquanto que a discussão ética e moral deixa de ser metafísica…

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